2026/01/04

Os algoritmos abusivos dos serviços de entrega de comida

Um (alegado) ex-funcionário de um serviço de entrega de comida denuncia as tácticas abusivas implementadas nos seus sistemas.

Os serviços "ride hailing" tipo Uber, Glovo, e outros, vieram transformar um sector da sociedade, por um lado dando maior conveniência a quem os utiliza e, do outro lado, prometendo maior versatilidade a quem procura fazer uns trabalhos extra (por cá nem tanto, devido à legislação - mas sendo a ideia de que "qualquer pessoa" poderia fazer este tipo de trabalho, como e quando quisesse, sem grandes constrangimentos).

No entanto, no papel de intermediários, estes serviços ficam com bastante poder na forma como podem gerir clientes e trabalhadores, e o risco para abusos não é apenas teórico. Depois de na Uber já terem surgido inúmeros relatos de tácticas duvidosas, surge agora um suposto relato na primeira pessoa, de um ex-funcionário que conta o tipo de coisas que se viu forçado a implementar ao trabalhar para um serviço de entrega de comida.

Começa por revelar que a opção de "entrega expresso", disponível mediante uma taxa adicional, na verdade não tem qualquer efeito real. Na verdade, a forma como a empresa lida com isso não é acelerando esses pedidos, mas sim atrasando todos os outros! Também revela que uma taxa que dá a entender que seria uma gorjeta para o entregador, na realidade reverte na totalidade para a empresa - tendo sido uma alteração feita depois de ter sido processada por se apropriar das gorjetas efectivas dos trabalhadores.

Mas a pior parte consiste no cálculo de um "factor de desespero" atribuído aos trabalhadores. Se um trabalhador aceita encomendas de baixo valor a altas horas da noite, passa a ser marcado como "desesperado" e, em resultado disso, o sistema deixa de lhes mostrar trabalhos mais bem pagos - tirando partido de ser uma pessoa que aceita os trabalhos de valor reduzido. Os trabalhos mais bem pagos são direccionados para trabalhadores mais casuais, como forma de os incentivar a voltarem mais frequentemente.

A suspeita inicial é a de que se tratasse do DoorDash, mas o seu CEO já veio negar por completo as alegações, dizendo que são totalmente contrárias aos princípios da empresa, e tendo até feito uma publicação oficial - no entanto, o serviço já levou com um processo por se apropriar das gorjetas, pelo que, vale o que vale.

Independentemente do serviço que for, mostra como é extremamente fácil haver abusos num mundo onde os "algoritmos" mandam. Quer seja a nível de calcular "factores de desespero", ou de apresentar preços mais elevados numa loja online a quem a visita usando um iPhone versus um smartphone Android ou que tenha estado a visitar lojas concorrentes (como já aconteceu no passado). Sendo que, a culpa não é verdadeiramente do algoritmo, mas sim das pessoas responsáveis que optaram por tomar essas decisões.


Actualização: O uso do alegado no início revelou-se ser acertado, já que a denúncia parece ter sido falsa - ou pelo menos feita por alguém que não deu provas concretas sobre a empresa para que supostamente trabalhava, usando imagens geradas por AI. Mesmo assim, são conhecidos abusos reais, já demonstrados em casos de tribunal, de como estas empresas (e outras) muitas vezes têm comportamentos abusivos; e que fazem com que este tipo de denúnca parecesse ser completamente plausível.


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