A Apple está a fazer o que pode para tentar demonstrar a escuta dos Apple Watch como sendo "privada".
Os novos Apple Watch 12 e Ultra 4 vêm com novas capacidades que permitem escutar e resumir tudo o que se passa em redor, levantando óbvias preocupações de privacidade. Mas obviamente que a Apple tem o trabalho de casa feito e tem um longo documento a justificar e explicar como tudo é feito.
Para o Live Rewind, que dá acesso a uma transcrição do que foi dito nos últimos 15 segundos, a Apple diz que isso não poderá ser usado secretamente, porque o Apple Watch vai emitir um aviso sonoro (mesmo que esteja em modo de silêncio) para sinalizar essa operação, com uma animação no ecrã. Adicionalmente, a informação apresentada só será mantida temporariamente, a não ser que o utilizador a grave expressamente. Parecem explicações que apenas existem para tentar "sossegar" o público, sem abordarem a questão principal, ao estilo da Meta dizer que os seus óculos têm um LED para indicar quando estão a gravar. Mas o Live Rewind não é sequer a questão mais preocupante, mas sim o Siri Recap.
O Siri Recap é o elemento que verdadeiramente gera maior preocupação, pois poderá estar à escuta a tempo inteiro, ao longo de todo o dia - e sem qualquer indicação visual ou sonora de que está activada, o que desde logo deita por terra as explicações usadas para o Live Rewind.
Para o Recap a Apple foca-se em dizer que é uma funcionalidade que está sob total controlo do utilizador, que pode activá-la manualmente só para momentos específicos, ou só em determinado horário, ou só em determinados locais. Novamente, nada disso dá qualquer descanso, não havendo forma de saber se alguém perto de nós, poderá ter um Apple Watch a escutar tudo o que dizemos. A Apple prossegue com outras tentativas de minimizar a situação, dizendo que o sistema não identifica pessoas específicas, que censura automaticamente informação "sensível" (fica por determinar o que fica de fora ou será registado), que as conversas são fortemente resumidas (equiparando-as à tomada de notas após uma conversação), e que todo o processamento é feito de forma segura, tanto no dispositivo como através do Private Cloud Compute, com todos os resumos a terem encriptação end-to-end, e a serem eliminados ao fim de 7 dias a não ser que sejam gravados pelo utilizador.
Ora, isto vem ao encontro das preocupações que já tínhamos referido anteriormente. Mesmo que a Apple esteja a fazer tudo isto da forma mais segura e privada possível, nada disso elimina o facto de que, quando activado, o Siri Recap se torna num verdadeiro sistema de escuta a tempo inteiro que manterá resumos de tudo o que ouviu nos últimos sete dias, e que ficarão disponíveis a atacantes (campanhas de spyware como as da Pegasus já demonstraram ser possível obter controlo remoto de iPhones através do envio de uma simples mensagem, sem intervenção do utilizador) ou às autoridades. Os cenários de potencial abuso do sistema são por isso, infinitos, indo dos mais imediatos (um suspeito que tenha um Apple Watch ser forçado a revelar todos os resumos) aos mais distópicos (autoridades a exigirem todos os resumos disponíveis de um determinado local numa determinada data).
Este tipo de tecnologia arrisca-se a ficar tão comum que todos passarão a usá-la sem "pensar nisso", e no processo, acabarão por ter resumos de coisas que não só se passaram no trabalho, mas também quando vão a uma consulta médica, uma sessão com um psicólogo, quando se confessam religiosamente, ou tudo mais que façam. E esta é ainda a primeira fase, já que no próximo ano deveremos começar a ter os AirPods com câmara, que passarão a adicionar toda uma nova dimensão visual a estas preocupações.



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