2014/02/11

Entrevista a Pedro Esteves - Lado B

O Lado B é um programa de divulgação de música, que começou na Rádio Ocidente (Mem Martins) em 2004, mas que entretanto trocou a emissão radiofónica pela difusão via internet. O Pedro Esteves é a alma deste projecto e que a poucos dias de passarmos por mais um dia mundial da rádio, aceitou ter uma conversa connosco sobre a história do Lado B que este ano (2014) celebra o seu 10º aniversário. Passo a palavra ao Luis Correia que tratou desta entrevista informal com o Pedro Esteves.


Olá Pedro, obrigado por acederes falares connosco. Face ao panorama da rádio em Portugal, completamente minado pelo formato playlist, achas que os ouvintes estão preparados para um programa como o Lado B?

Penso que sim. O lado B é assumidamente um programa de nicho, ainda que baseado nos géneros Pop/Rock e electrónica “audível”; explora a novidade, e a música de novos artistas ou dos menos conhecidos. Durante muito tempo usei um “carimbo” (ainda uso, de vez em quando) que diz “novos sons para outros ouvidos”, e sei que há muita gente disposta a conhecer, que gosta de descobrir música nova - ainda que alguma dessa música acabe por chegar às playlists das rádios FM, já aconteceu. Mas contas feitas a maioria dessas músicas nunca passa nas nossas Rádios, e o objectivo é precisamente esse: dar airplay à música que não tem espaço na Rádio convencional.


Será que a divulgação maciça por parte das editoras nas playlists é mesmo a única forma de fazer chegar novas músicas ao grande público?

Não. A Rádio ainda assume um papel preponderante na divulgação de música em grande escala, mas os canais de distribuição já são mais diversificados. Hoje usam-se cada vez mais os serviços de streaming como o Spotify ou o YouTube, e as redes sociais alteraram também os sistemas de “recomendação”. As pessoas estão mais inclinadas para ouvir uma música partilhada por um “amigo” do que ir à descoberta por si mesmas. Descobrir boa música dá trabalho.


Como vês o quase total desaparecimento dos programas de autor nos horários nobres das rádios ditas comerciais?

Tenho pena. Os programas de autor são um garante de diversidade que as playlists anulam, a maioria das vezes. Quando é um produtor/autor a definir o conteúdo musical do seu programa e - muito importante - a forma como o apresenta, a Rádio ganha em dinamismo, em multiplicidade. As playlists são não só redutoras, como matam a presença genuína e individual do produtor/autor/apresentador de rádio. E não me venham com a conversa de que o apresentador (ou “animador”…) tem um “espaço próprio” quando apresenta música que ele não escolhe. Imagina teres de apresentar um artista ou uma música que detestas mas que tens de passar porque está na playlist, e ainda por cima tens de dizer que aquilo é bom! É tudo teatro, e geralmente do mau.



A Internet passou a ser o meio por excelência da maioria dos músicos para divulgação de novas obras. Esta mudança de meio, do físico (controlado pelas editoras) e o virtual (controlado pelos artistas) veio levantar questões relacionadas com os direitos de autor, mais por força das editoras que assim "perdem o controlo". Que comentários fazes sobre esta questão, pensas que a Internet vai eliminar o papel das editoras?

Acho que não. As editoras demoraram muito tempo a responder ao fenómeno da internet e da pirataria, mas começam a adaptar-se. Penso que ainda vão a tempo. Em especial porque um artista para dar o salto para as massas precisa das editoras. São raros os artistas que o conseguem fazer sozinhos. As editoras são máquinas que catapultam os artistas para o estrelato, e a maioria deles é isso que deseja. A Internet é e continuará a ser uma oportunidade magnífica para os novos artistas, mas são poucos os que conseguem viver apenas no online. Precisam das editoras para passar nas Rádios de grande audiência, e daí para os grandes espectáculos e digressões. As editoras já não vendem discos, mas ainda vendem sonhos.


Pois, certo a “pirataria”... ou seja, a partilha de música feita entre os consumidores, como sempre se fez desde o vinil. Concordo que o formato digital facilita a partilha (cópia como eles nos querem impingir), mas será que faz mesmo mossa? Haverá provas de que esta partilha de conteúdos digitais faz mesmo diferença?

Concordo contigo, "pirataria" e "partilha" são coisas diferentes, e são constantemente metidas no mesmo saco. Mas sempre foi assim: se reparares nas letras pequenas inscritas nos inlays dos discos, tu não és proprietário da música que está no disco que compraste, apenas adquiriste o direito de a ouvir. É uma história velha. Mas sobre se faz mossa ou não... já li artigos que defendem que sim, outros que não; não é um assunto consensual. Empiricamente não nego que a partilha de música tenha sido responsável - ou pelo menos, o "motor de arranque" - da queda vertiginosa da venda do suporte físico, porque a internet ampliou essa "partilha entre amigos" a uma escala sem precedentes. Por outro lado, também gostava de saber se perante a abundância de música acessível (legalmente) com um clique, a venda do suporte físico continuaria hoje a níveis mais altos. Além de que a venda de música em suporte digital continua em alta, mas o paradigma mudou, isso já não dá (tanto) retorno financeiro para as editoras. E é um absurdo pagar 15€ por uma rodela de plástico, quando podemos comprar a nossa música preferida de um álbum pelo preço de um café.


Por outro lado, como é que vês os ataques constantes aos direitos do consumidor, nomeadamente no que diz respeito à famosa lei da Cópia Privada?

É um último fôlego. Essas corporações tentam arranjar dinheiro como podem, e a lei da cópia privada é só mais um exemplo do poder que ainda exercem junto dos meios de decisão. É óbvio que os artistas precisam do dinheiro para fazer música e merecem ser recompensados pelo seu trabalho, mas a indústria musical ainda não conseguiu encontrar maneira de se rentabilizar. É uma estrutura antiga muito habituada a grande lucros, mas o dinheiro agora circula de maneira diferente, nomeadamente no circuito dos espectáculos ao vivo, que é o terreno das promotoras de espectáculos. Parece-me que é uma questão de tempo até que sejam as editoras a assumir também esse papel. Até lá, vão sacando dinheiro como podem, nem que seja por intermédio de leis absurdas como a da cópia privada.


Mudando um pouco de tema, que material é que usas para montar o Lado B? Descreve-nos o setup de software e hardware e mais ou menos quanto tempo levas a preparar um programa.

O lado B é um programa feito em casa, na secretária onde tenho o computador. Há quem pense que tenho um mini-estúdio em casa, mas não, é um sistema muito simples. Tenho um microfone de condensador (Rode Broadcaster) ligado a uma caixa PreSonus FireBox que alimenta o microfone e por sua vez converte o sinal para digital, que entra no computador (um iMac) via USB.

Gravo a voz e edito todo o programa no GarageBand, que já vem instalado no computador. O processo de gravação e montagem do programa demora mais ou menos quatro horas. Escolher as músicas, fazer o alinhamento, escrever, gravar, e editar o som para o Master final. Depois mais uma ou duas horas para a componente online - website, mixcloud, newsletter, etc. Ao todo preciso de uma média de seis horas para ter uma hora de programa “no ar”, sem contar claro, com as muitas horas que perco (ganho) a ouvir música.




De onde é que obténs a matéria prima que usas para divulgação, são os artistas e/ou editoras que te enviam material ou é por pesquisa activa?

Ambos. Muita da música que passo chega-me directamente dos promotores e dos artistas. Ao longo destes dez anos construí uma rede de contactos muito interessante, recebo diariamente muitas mensagens de email com música. Mas faço muita pesquisa também. E a quase totalidade das músicas que divulgo estão disponíveis gratuitamente na internet. É um programa livre, feito de música livre.


De quem é a voz feminina que usas nos “carimbos” do programa?

É da minha amiga e colega Ana Bravo (TSF). Antes dela usei outros “selos” com a voz de uma outra amiga, a Patrícia Correia.


O lado B esteve parado durante um ano; aliás, deste-o como terminado na edição n.º 300. Porque voltaste?

Por falta de uma ideia melhor! (risos)
Precisava daquela paragem. O lado B já ia com 8 anos de emissões semanais, e ocupava muito tempo. Dá-me muito gozo fazer o programa, mas como tudo o que é “a feijões”, tem de ser doseado. Na prática estive pouco tempo parado, uns meses depois comecei a publicar as mixtapes, que são mais ou menos um programa mas sem a voz. O que faz toda a diferença, claro. E o feedback que tive das pessoas que seguem o lado B teve um papel importante no regresso do programa. Foi o tal “nicho” de que falava no início, a levantar a voz, foi importante.


Mas agora fazes o programa com uma periodicidade mais ou menos mensal, deixaste de o produzir todas as semanas…

Sim, é um programa feito apenas da minha vontade, é um espaço sem obrigações, livre. É um programa de autor.

... E esperemos que assim se mantenha por muitas mais décadas!


Terminamos agradecendo ao Pedro por ter aceite conversar connosco sobre o seu projecto. Podem obter todos os detalhes sobre o Lado B em http://pestefm.com e seguir o Pedro no Facebook, Twitter e Soundcloud.

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