2013/01/03

A Educação Digital em Portugal


Ninguém é perfeito e ninguém nasce ensinado. Isso são pontos fundamentais que convém relembrar antes de se apontarem erros ou situações - e também relembrar que também nós teremos as nossas próprias falhas (embora não seja isso que esteja em causa). Mas o que é certo é que fico assustado ao ver a forma como muitas pessoas, e principalmente os mais jovens, lidam com "os computadores".

Com tanta aposta na educação digital, tivemos os "Magalhães" a servir de bandeira de que em Portugal não haveria um único aluno sem computador, e mais recentemente até nos dizem que todos vão poder ter internet a 30Mbps no mínimo até ao final da década; não seria de imaginar que as coisas estivessem um pouco melhores?

A sério que me assusta ver jovens que dominam as suas Playstations e Xbox com total mestria... mas que depois a trabalhar num computador continuam a procurar vagarosamente pelas teclas com as letras que precisam, e a perguntar timidamente se é no "Caps Lock" que têm que carregar para escrever em maiúsculas. Ou então, quando estão num site e querem ir para outro, fechar o browser e tornar a abri-lo, para que lhes surja a página inicial da pesquisa?




Isto são daquelas coisas básicas que se esperaria serem ensinadas nas aulas (imagino eu)... mas que, aparentemente, parece que não.

E portanto, como depois posso criticar que na maior parte das vezes não tenham noção da importância de criar uma password segura e a decorem, por exemplo para aceder ao seu email (normalmente está num post it colado no ecrã)? Ou que se sintam baralhados quando lhes pergunto se estão registados num Gmail/Hotmail/etc.?


Talvez mais grave ainda, sei de casos em que a tentativa de alguns professores (sem serem da área) tornarem as coisas mais eficientes, usando coisas como o Dropbox, para que os alunos possam ter acesso a conteúdos e lá colocar os seus trabalhos - resulta em fortes críticas e pressões para que deixem de o fazer, pelos professores "tecnológicos", que parecem ficar igualmente perdidos perante tais "tecnologias avançadas" e não querem ficar mal na figura.

É certo que meia dúzia de casos não serão suficientes para tirar um retrato fiável da situação "geral" que se vive no nosso país... mas o que é certo é que me assusta bastante ver e ouvir as coisas a que vou tendo acesso.


E preocupa-me também que a nova geração de equipamentos mobiles (Android, iOS, e afins) vá simplificando cada vez mais a utilização dos equipamentos. Isto é... por um lado é bom, pois permitirá o acesso a pessoas que até ao momento se sentiam intimidadas por mexer num computador (e não o faziam). Mas por outro lado simplificam as coisas a tal ponto que muitos dos jovens actuais passem unicamente a olhar aquilo para um instrumento que simplesmente funciona - como tantos outros - e sem qualquer noção de como funciona por dentro.

Talvez seja um receio infundado... pois imagino que noutras épocas alguém poderá ter dito o mesmo relativamente ao motor de um automóvel por exemplo - e a verdade é que hoje em dia só queremos saber onde é que fica o botão para ligar o motor e que ele funcione bem, sem grande desejo de saber o que se passa lá por dentro. E ainda assim, continuamos a ter mecânicos, e engenheiros que vão desenvolvendo e inovando soluções para o futuro.

Talvez com os computadores e a informática se passe o mesmo... para a maioria das pessoas os computadores serão "coisas" que simplesmente queiram saber onde se ligam e desligam - sem que com isso deixem de existir alguns interessados curiosos em saber como é que as coisas funcionam por dentro, de investigar e explorar os bits e bytes que são responsáveis por tornar essa "magia digital" possível.


Mas... voltando ao tema inicial, parece-me que mesmo olhando para os computadores como meras ferramentas, a educação na sua utilização está bastante distante dos níveis que eu consideraria adequados ou desejáveis.


Que me dizem vocês dos casos que conhecem?

9 comentários:

  1. Sou professor e posso confirmar que para grande maioria dos jovens, informática é Facebook.

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  2. Por acaso tenho a ideia errada... Os putos hoje em dia estão cada vez mais inteligentes!
    São brindados desde pequeninos com todos estes Gadgets e claro, a curiosidade nasce da utilização dos mesmos e do que conseguem ou podem fazer com eles...
    Eu tenho conhecido casos completamente opostos do retratado no artigo! Claro que também temos casos de "menos", principalmente associados à Educação! Tudo aquilo que seja para complementar a Escola, é automaticamente negativo para os alunos e bloqueado!
    Agora digam as essas mesmas crianças que o seu telemóvel pode fazer X se devidamente configurado, ou a PSP fazer Y, se levar com um Mod, etc
    E depois temos a competição e os Fanboys que defendem os seus Gadgets e conhecem-nos muito bem e os comparam! E quando argumentam que os deles modificados debitam mais aquilo... Então a coisa fica séria! De repente o consumidor passou a entendido.
    Claro que a Educação Digital em si é uma treta em Portugal, as aulas de TIC eram uma palhaçada e não havia um programa e Professores coerentes...
    Agora que os putos estão cada vez mais auto-didactas e que em tudo o que pegam, dominam e modificam ao seu bom gosto... Disso não restam duvidas!
    Ou seja, aprendem à medida que necessitam para poderem competir com o amigo ou mesmo para fazer face ás limitações que sentem com o seu Gadget.
    Vejo mais os adultos neste momento a fazer perguntas de como se liga e desliga e se abre o processador de texto, e o resto enquanto funcionar... óptimo, não se mexe! Exemplo disso são os Smartphones, com os miúdos a personalizar os mesmos á exaustão e os adultos... muda o toque, o wallpaper e... está bom!

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  3. Não concordo. Existem míudos que não sabem muito mas a literacia digital é maior nas gerações mais novas que nas mais velhas.

    Óbviamente que existem excepções mas é muito melhor que no meu tempo.
    Á 14 anos nas aulas de Informática ensinavam-nos a mexer no MS-DOS (quando já estava tudo no Windows 95/98) e a utilizar o Microsoft Office.

    Se é para ensinar os miudos a usar os computadores então que se lhes ensine ferramentas básicas de programação por exemplo.

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  4. No geral acho que a visão de querer descobrir as entranhas e funcionamento dos equipamentos tende a desaparecer. Eu sou dos que só querem carregar num botão de ligar o carro e o resto tem de funcionar... seja como for.
    Em relação a hardware e software e acima de tudo Internet, já me circula no sangue e faz parte do dia a dia, mas tenho a perfeita noção que para a malta mais velha e cada vez para a mais nova todos os gadgets têm e devem ser uma caixa ou outra coisa que se liga e funciona. Como não interessa, apenas tem de cumprir a função. E por isso temos toneladas de gente com smartphones de topo de gama que apenas usam o telefone ou processamento de texto no Word a usar um cagagégimo das potencialidades.
    E não vale a pena complicar com tentativas de mudança de mentalidades, desde que a coisa funcione, tudo bem :-)

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    1. Pois, tu és o tipo de consumidor que é o sonho molhado de todas as marcas. Compras o que te puserem á frente independentemente do preço e se se ajusta ás tuas necessidades.

      Isso não tem nada a ver com literacia digital no entanto.

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  5. Os fabricantes, os académicos, os profissionais de IT e o mercado em geral andaram décadas a construir e aperfeiçoar sistemas de modo a torná-los o mais simples e intuitivos possíves de usar pelo consumidor. Não podem vir agora queixar-se que as criancinhas não sabem o que está "debaixo do capot"! Não há aqui nada de novo. Quem é que hoje em dia sabe como funciona um injector de combustível e como é que lá chega dentro de um motor? Quem é que sabe como instalar uma caixa de derivação numa instalação eléctrica?
    A tecnologia cresce e vai-se tornando progressivamente madura, a ponto de ser invisível para o consumidor e isso é bom.

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  6. Carlos, eu tenho uns textos que escrevi sobre o mesmo tema, tenho que lhes dar um revisão, talvez os publique, não posso estar mais de acordo contigo. Para além das situações que mencionaste, há uma que me põe "fora de órbita", a confusão entre o duplo clique e o clique simples. Um abraço

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  7. Sou um aluno do 11º ano do curso de Ciências e Tecnologias. No que concerne à tecnologia e à informática em geral, penso que os meus colegas (tirando um ou outro)não percebem nada destes temas! Apesar de estar num curso com "tecnologia" no nome, desde que entrei para o 10º ano, nunca tive uma aula que honrasse o termo. Apenas tive TIC no 9º ano(e apenas no 2º e 3º períodos, por razões burocráticas...).
    Citando o que ouvi um dia destes num filme, "Não há maus alunos. Há maus professores.". Se os meus colegas não sabem nada sobre tecnologia foi porque ninguém lhes ensinou! Ainda prevalecem, pois, perguntas como "o que é um virus?" ou "o que é um sistema operativo?" ou também já ouvi sugestões como "Se quiseres ter Internet mais barata [no Android] sacas o APN portugal!"...
    Parece-me que está na hora de modificar o sistema de ensino!

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  8. Concordo com o texto, tenho 15 anos e tenho amigos que são assim, para a maioria computador é Facebook, nada mais. Se eu lhes falo de outra rede social como o Google + , eles ficam a olhar para mim e só 1 ou 2 é que diz que já ouviu falar :)
    Cá em casa sou eu que faço a manutenção do único pc que temos , configuro a impressora para se ligar à rede wifi etc etc.
    Nem sempre é fácil :-D
    Lembro me , por exemplo, quando à 1 ou 2 anos a dificuldade que tive para convencer os meus pais e a minha irmã a usar o Firefox em vez do IE. Felizmente já o usam agora !

    Ainda há 2 semanas instalei uma custom rom no meu xperia x8 que estava preso no 2.1, por isso nem todos são como os do texto :D

    No entanto tenho noção que ainda há muito a aprender e não me acho um sabichao. Apenas gosto do que faço e tenho prazer nisso

    Abraço

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