2010/02/01

Sapo Codebits 2009

Já vos tinha falado do Sapo Codebits 2009, mas agora é altura de vos deixar também o artigo que escrevi para a Connect de Janeiro.
(Na edição de Fevereiro, que já podem encontrar nas bancas, tenho um novo artigo que espero ser do vosso agrado: desta vez dedicado à Realidade Aumentada. :)

Artigo originalmente publicado na Connect.

A edição deste ano do Sapo Codebits teve lugar em local privilegiado: as instalações da Cordoaria Nacional em Lisboa. Para quem não sabe, este evento dedicado à tecnologia e programação junta mais de 600 pessoas anualmente, com inúmeras apresentações feitas por oradores nacionais e estrangeiros sobre as mais diversas áreas. Aliás, é um evento tão concorrido que as inscrições (limitadas) rapidamente esgotaram, obrigando à suspensão da publicidade sobre o evento no estrangeiro.


Um balcão cheio de simpáticos colaboradores dava as boas vindas aos participantes que chegavam. Rapidamente eram entregues as credenciais para o evento e uma pasta que continha diversas ofertas: informações sobre o evento, uma folha cheia de autocolantes "geek" (com que muitos rapidamente personalizaram os seus portáteis), um iluminador de teclado LED USB, mas... o mais original era mesmo um "kit de viagem" contendo um par de meias, suporte insuflável para o pescoço, uma venda para os olhos, e a sempre indispensável escova de dentes - uma oferta que certamente terá agradado a todos os que se pudessem ter esquecido desse acessório indispensável, e também para os participantes mais convictos que optaram por lá passar os três dias do evento, dormindo sobre puffs e camas suspensas existentes na área de descanso.

A Cordoaria estava praticamente irreconhecível... Este espaço histórico foi transformado num espaço futurista, pintada com feixes coloridos de luz e com as últimas tecnologias. Perto da entrada uma pirâmide tridimensional de blocos ia desfilando as fotografias de todos os participantes, graças a uma técnica conhecida como "projection mapping" (que deixava muitos dos participantes intrigados, graças à utilização de vários projectores para projectar imagens sincronizadas em planos perpendiculares.) Um pouco mais ao lado, podíamos assistir a apresentações da Meo, a painéis e ecrãs multitouch (como o Surface da Microsoft), e a televisões 3D - não só daquelas que necessitam dos tradicionais óculos, mas também um modelo autoestereoscópico que os dispensava. Havia ainda uma secção dedicada aos videojogos, com consolas Xbox 360 que raramente estiveram paradas, e até uma máquina arcade com diversos jogos clássicos de outros tempos. Mas... não havia tempo para esse tipo de coisas, as apresentações estavam já a começar!

As diversas apresentações dividiam-se entre quatro locais: o palco principal, com lugares sentados para centenas de pessoas; e três espaços mais pequenos e informais onde os participantes se sentavam em sofás e puffs espalhados pelo recinto. No entanto, todos os apresentadores contavam com as mordomias esperadas num evento dito "tecnológico": telas e projectores, câmaras de vídeo, microfones sem fios, todos os acessórios indispensáveis para assistir e facilitar o trabalho. Refira-se que todas as apresentações foram gravadas em vídeo, e que o evento estava também a ser transmitido em directo para a internet e num canal da MEO. A maior dificuldade -já esperada- era decidir quais as apresentações a assistir. Felizmente podemos revisitar todas as apresentações, já que os vídeos estão disponíveis no site do Codebit.

Os temas eram diversificados: electrónica, robótica, bases de dados, Internet, programação de jogos, desenvolvimento para dispositivos móveis como o Android e o iPhone, e muitos outros que demonstravam claramente que o Codebits junta inúmeras áreas tecnológicas; algumas até que podem parecer um pouco "estranhas", como o Yoga. E se dúvidas houvesse, a sessão de "lockpicking", onde Walter Belgers deu show no palco principal ao demonstrar a facilidade com que quase todas as fechaduras podem ser abertas, foi o culminar do "hacking" mecânico.


Mas nem só de tecnologia vive o Homem, e muito menos num evento deste tipo. O ambiente vivido entre as muitas centenas de participantes era fantástico. Juntar todas estas pessoas que partilham a mesma paixão pela tecnologia é algo verdadeiramente impressionante e que apenas pode ser "sentido na pele." Foram três dias num clima propício à troca de ideias, a discussões entusiasmantes, e à criatividade espontânea. Para os mais tímidos, o tradicional Quiz Show, onde foram colocados à prova os conhecimentos dos participantes (num jogo de "cultura geral" ligeiramente adaptado para o tipo de público presente) poderia ser uma das formas mais divertidas de ficar a conhecer novos colegas.


No rescaldo do primeiro dia, de entre todas as excelentes apresentações que assisti, tenho que salientar a de Mitch Altman e a do movimento Hackerspace. Mitch é o criador do "TV-B-Gone", um telecomando com um único botão que tem um único propósito: apagar todas as televisões ao seu alcance! (E olhem que há modelos com alcances de 150m!) Com o seu cabelo multicolorido, podemos dizer que Mitch é um "hippy" tecnológico dos tempos modernos, e torna-se impossível não nos comovermos com a paixão e entusiasmo com que fala sobre os temas que lhe são queridos. No Codebits existia uma área dedicada à electrónica onde qualquer podia podia meter "mãos-à-obra" e soldar os seus projectos electrónicos. Aliás, esta área causou até um pequeno percalço, quando um dos participantes ao experimentar o seu kit TV-B-Gone acabado de montar terá inadvertidamente desligado um gravador DVD que registava uma das apresentações. Para o próximo ano fica a dica: tapar todos os receptores infravermelhos dos vários equipamentos electrónicos.


Outro ponto alto que atraiu as atenções (não só no primeiro dia mas durante todo o evento) foi a impressora tridimensional Cupcake CNC. Este pequena impressora permite criar objectos 3D depositando um pequeno filamento de plástico derretido, camada após camada. O mais surpreendente é que está disponível por cerca de $750 USD. Um preço incrivelmente baixo que faz antever que, no futuro, todos tenhamos impressoras 3D em nossas casas onde poderemos imprimir objectos à medida sempre que for necessário. Para verem a versatilidade deste tipo de máquinas, a impressora estava a imprimir peças sobresselentes para si própria. (Deixo também o meu agradecimento à Catarina Mota do Altlab por todas as explicações sobre o funcionamento da mesma, e convido todos os potenciais interessados a visitar os diversos espaços "hackerspace" existentes no nosso país para verem estes - e outros - "brinquedos" em funcionamento.)


No segundo dia, novos temas, novas apresentações. Novamente o dilema de ter que escolher quais assistir - e principalmente - quais não assistir. Mas era a parte da tarde que começava já a pairar no pensamento de muitos participantes: pois iria iniciar-se o concurso de programação Codebits. Neste concurso, todos os participantes são convidados a juntarem-se em equipas e a criarem um projecto original. O único "problema" é que têm que o desenvolver num prazo de 24h. Para além dos prémios aliciantes, o mais interessante acaba por ser o trabalho de equipa, a criatividade, e o saudável espírito de competição que um evento deste tipo proporciona ao juntar tantas mentes brilhantes num único local.


Aliás, é esse um dos propósitos deste evento, como pude apurar numa curta conversa com Celso Martinho, um dos principais responsáveis pela existência do Codebits (e do Sapo.) Depois de anos a assistir a eventos deste tipo no estrangeiro, Celso lembrou-se de importar a ideia e adaptá-la à nossa realidade. O resultado: o Sapo Codebits. Dezenas de pessoas que trabalham durante meses a preparar o evento, e que se multiplicam em muitas mais nas semanas que o antecedem. Mais de meio milhar de participantes, dezenas de convidados nacionais e estrangeiros, uma vasta equipa que -24h por dia- está à disposição dos presentes sempre que necessário, enfim... toda uma "máquina" gigantesca que permite que tudo decorra sem problemas durante os três dias do evento.
(Como mera curiosidade, e para atestar -uma vez mais- a qualidade dos parceiros envolvidos no evento, depois do encerramento foram necessárias apenas três horas para que a Cordoaria Nacional voltasse a ter a sua face habitual, com todos os vestígios do Codebits removidos como que por magia.)


O fim da noite reservava-nos outra surpresa: um concerto bem à medida do evento com os Pornophonique. Esta banda alemã tem a particularidade de utilizar uma consola de jogos portátil Gameboy como instrumento musical, e de ter um portfólio de músicas inspiradas em videojogos clássicos, como o Space Invaders e o Lemmings. Mas lá pelo meio nem faltaram algumas versões bem originais de músicas de outros artistas mais conhecidos, como Madonna e até - imaginem só - Britney Spears!


No terceiro dia, enquanto grupos de programadores ensonados (a sobreviverem a pizza e redbull disponíveis gratuitamente e em quantidades "industriais" durante todo o evento) ultimavam os seus projectos, foi tempo de assistir a mais algumas apresentações interessantes. Filipe Valpereiro veio falar de Physical Computing, e de como a plataforma Arduino tem permitido a uma nova geração tornar os seus sonhos realidade. Actualmente, com um pequeno kit electrónico de baixo custo podemos dar forma aos nossos projectos, que podem incluir câmaras de vídeo, GPS, acelerómetros, RFID, e até medidores de frequência cardíaca. Para além de falar de vários projectos interessantes em que participou e de deixar alguns robots "à solta" entre a audiência, relembrou também que o Paperduino, uma plataforma para Arduino feita em papel e cartão, nasceu no nosso País. De seguida, foi tempo de Paula Valença nos falar um pouco sobre criptografia e um pouco de História, com a máquina Enigma que nos fez voltar ao tempo da Alemanha nazi na Segunda Guerra Mundial.

Depois do almoço (e para que não pensem que não havia comida saudável à disposição, informo que existiam saladas e fruta disponíveis para todos - e outras opções haveria, não fossem as restrições devido a questões de licenciamento e higiene) todos os caminhos iam dar ao palco principal, onde se aguardava o início das apresentações dos projectos feitos em 24 horas.

A apresentação segue regras bem definidas (e bem necessárias) para evitar atrasos: cada participante tem apenas 90 segundos para apresentar o seu projecto, e a votação é feita em tempo real pela audiência via internet.


Como seria de esperar, houve de tudo um pouco: foram mais de 60 projectos, alguns realmente interessantes, outros que apostaram mais na parte cómica, e outros ainda que pecaram por terem sido incapazes de fazer a demonstração completa no espaço de tempo atribuído. Em palco pudemos ver jogos, serviços sociais, projectos de ajuda aos deficientes visuais, de matemática para crianças, e até robots que tiravam fotografias. Se alguns deles eram simples exercícios de criatividade, muitos outros houve com boas probabilidades de virem a dar origem a serviços "reais" que poderão ostentar com honra: "nascido no Codebits 2009."


É bom ver que Portugal tem um evento desta categoria e dimensão, que em nada fica a dever aos eventos que decorrem noutros países. Ficamos a aguardar ansiosamente pelo Codebits do próximo ano, cuja existência ficou já assegurada, e não tenho qualquer dúvida que, por muito boa que esta edição possa ter sido; para o ano teremos um Sapo Codebits ainda melhor!

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