2021/12/11

Professores portugueses precisam melhorar competências digitais

Um estudo abrangendo quase 100 mil professores portugueses revela fraca preparação para tirarem o máximo partido das ferramentas digitais.

Muitos pais já terão sido surpreendidos ao verem alguns professores dos seus filhos cometerem erros crassos a nível da utilização das tecnologias. Já assisti a coisas como professores a imprimirem folhas com imagens, para recortarem fisicamente o papel e fazerem colagens, para depois fazerem o scan da página para voltarem a passar para o computador. Este estudo conduzido por Margarida Lucas e por Pedro Bem-haja da Universidade de Aveiro (UA) confirma esses receios, demonstrando um nível baixo das suas competências digitais, em parte explicado pela idade elevada dos professores e e falta de formação adequada, mas também um interesse em melhorar a situação.

... Sob pena de serem os alunos a ensinar os professores nestas áreas digitais. :)


Segue o comunicado na íntegra:

Estudo pioneiro diagnostica níveis de competência digital dos docentes portugueses

Os docentes dos Agrupamentos de Escolas e das Escolas Não Agrupadas da rede pública de Portugal Continental foram recentemente convidados a refletir sobre a sua competência digital, através de um estudo conduzido por Margarida Lucas e por Pedro Bem-haja da Universidade de Aveiro (UA). O estudo foi solicitado pela Direção-Geral da Educação (DGE) e envolveu 99 760 docentes, o que corresponde a 92 por cento dos docentes portugueses. Este número “demonstra o interesse e importância que os docentes portugueses atribuíram a esta oportunidade”, refere Margarida Lucas, investigadora do Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF), uma das unidades de investigação da UA.

O estudo recorreu à Check-In, uma ferramenta desenvolvida pela Comissão Europeia, que permite aos docentes refletir sobre a utilização que fazem de tecnologias digitais em diferentes áreas da sua profissão, sendo a área pedagógica o foco principal. Para além disso, explica Margarida Lucas que colaborou na construção da Check-In e a validou para ser utilizada em Portugal, a ferramenta “devolve ao professor um nível de proficiência global e por área de competência (do A1 ao C2), bem como feedback detalhado, o que lhe permite identificar áreas/competências específicas que pode melhorar”.

Os resultados do estudo “apontam para um nível de proficiência médio global correspondente ao nível intermédio B1, que se pode considerar baixo”, aponta Margarida Lucas, especificando: “Cerca de metade dos docentes que participaram no estudo não ultrapassa o nível básico A2 de proficiência em áreas específicas de competência, como a integração de tecnologias para diversificar estratégias de avaliação, promover metodologias ativas de ensino e aprendizagem ou promover a competência digital dos alunos”.

Resultados em linha com a Europa

Margarida Lucas aponta que os resultados “estão em linha com resultados apurados noutros países europeus” sendo que, em alguns casos e em relação a áreas específicas de competência, são até melhores. “Há vários fatores que podem ajudar a explicar os resultados, sendo um deles o facto de termos um corpo docente envelhecido que não foi preparado para esta realidade e que pode não ter optado, ao longo da sua carreira, por investir nesta área”, explica. Por isso, sublinha, “os resultados devem ser encarados de forma positiva, pois significam oportunidades de desenvolvimento e de transformação que se podem concretizar de diferentes formas”.

A participação de 92 por cento dos docentes portugueses só foi possível com o apoio da DGE e dos 91 Centros de Formação de Associação de Escolas (CFAE) portugueses. A DGE delineou e articulou uma estratégia de comunicação e colaboração com os CFAE para conseguir chamar os docentes a participar. Esta estratégia faz parte do Plano de Capacitação Digital de Docentes, uma das dimensões do Plano de Ação para o Desenvolvimento Digital das Escolas (PADDE), no âmbito do Plano de Ação para a Transição Digital, aprovado pelo Governo em abril de 2020.

Com base nos resultados alcançados foi possível disponibilizar aos docentes um conjunto de oficinas de formação que pretendem responder às necessidades identificadas e aos seus perfis individuais. “É uma iniciativa de grande escala, envolvendo diferentes focos de ação e que, por enquanto, não se encontra a ser desenvolvida em mais nenhum país europeu”, diz a Investigadora.

Aposta na formação

Para melhorar as competências digitais dos docentes, aponta Margarida Lucas, “é preciso, acima de tudo, que os professores invistam na sua aprendizagem profissional numa perspetiva de constante atualização. É preciso que os docentes se apropriem do digital e percebam o seu potencial para transformar práticas pedagógicas. O grande desafio está nesta transformação”. É preciso igualmente “que as instituições responsáveis pela formação inicial de docentes incluam esta componente nas suas ofertas formativas de forma transversal e que os docentes dessas instituições sejam, também, digitalmente competentes e sejam, eles próprios, exemplos de inovação e mudança”.

Para além das oficinas de formação disponibilizadas no âmbito do Plano de Capacitação, que iniciou em abril deste ano e durará até julho de 2023, “há outras oportunidades de desenvolvimento que os docentes podem aproveitar e que muitos já aproveitam. Cabe também ao docente ser agente ativo na procura e seleção das modalidades de formação que melhor respondem às suas necessidades de aprendizagem”.


1 comentário:

  1. Eu acho que um bom auto desafio é tentar acabar com o papel e repensar na forma como era costume fazer tudo em volta do papel por forma a não estarmos dependentes do mesmo nem tentar criar documentação que simula páginas em papel.
    Eu acho que para uma transição digital completa não há necessidade de criarmos páginas no formato A4 por forma a quem quiser imprimir poder ter em papel, pois isso é um travão ao salto necessário para nos libertarmos da ideia que a informação tem de estar agarrada a um meio físico.
    Talvez o problema comece com a ideia que é bom os miúdos habituarem-se a ler livros e fazer pesquisas em livros e tenham a necessidade de agarrar algo onde esteja representado ideias e conceitos que cada vez mudam a um ritmo mais rápido (obrigando a fazer novas versões de livros?) e cada vez o conhecimento dos antepassados ocupam mais peso nas mochilas em vez de se cultivar uma forma dinâmica de aceder à informação de uma forma digital, seja um tablet, um e-book reader, ou um computador com dual monitor por aluno na sala de aula.
    Faz algum sentido haver 30 alunos a levarem o mesmo livro, ou melhor 30 livros iguais com matéria para o ano inteiro para estarem a seguir o assunto todos na mesma página?
    Já faz algum tempo que passámos da pré-historia para a história, está na altura de darmos o passo seguinte.

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