Não posso deixar de me rir sempre que leio artigos deste género, em que toda a gente parece andar preocupada com a velocidade de arranque dos PCs.
É que... da última vez que olhei, os PCs já cá andam há mais de uma dezena de anos, e - só agora é que estão preocupados com os tempos de arranque?
Eu fico doente só de pensar em como algumas coisas evoluiram de forma tão desproporcionada.
Ora vejamos, há 10 atrás (portanto, no século passado) andava tudo "doido" com um pequeno computador chamado Amiga 500.
E perguntam vocês: o que tem isso a ver?
Bem... é simples... num CPU que corria a 7Mhz, e com 512Kb de RAM tinhamos já um ambiente gráfico que permitia tudo o que hoje se faz em máquina incomparavelmente mais potentes.
Hoje, 10 anos passados, temos máquinas com CPUs a correr a 500x aquela frequência, com 4000x mais memória, e o resultado: o sistema operativo pode demorar minutos a arrancar, clica-se num ficheiro de texto e tem que se esperar longos segundos até que um programa de texto o abra, e outras coisas que tais! Dificilmente uma experiência 500x ou 4000x superior à que tinhamos há 10 anos atrás...
Custa-me a aceitar isto.
Acho inadmissível um sistema operativo (ou qualquer outro programa) acabado de instalar ocupar Gigabytes de espaço em disco.
Tou bem ciente de todas as complexidades dos sistemas operativos actuais, desde a detecção de milhares de dispositivos "plug'n'play", protocolos de rede, etc. etc. Mas mesmo considerando tudo isso - não me convencem.
Aliás, já repararam como - na maior parte das vezes - os melhores programas e utilitários são os mais pequenos???
Vejam o caso do uTorrent, um programa que nem precisa de instalação e que ocupa uns "monstruosos" 170Kb!
AntiVirus que ocupam centenas de Megabytes!?! Juízo!!! Há antivirus gratuitos que ocupam uma fracção do espaço e recursos usados por esses mastodontes que muitas vezes vêm "oferecidos" de origem nos computadores novos. Não admira que quem compre um computador de entrada-de-gama hoje em dia, fique com uma arrastadeira que se porta de pior forma que um computador de 400Mhz com 64Mb de Ram a correr o Windows 98!
Bem, naqueles dias, um qualquer programa ou sistema operativo podia ser programado por uma única pessoa (ou um pequeno grupo) - e sendo essa pessoa um bom programador, obtinha-se um "milagre": um programa eficiente, ocupando o mínimo de recursos e com a melhor performance possível.
Hoje em dia, são centenas/milhares de programados"a monte" encubidos da tarefa de fazer um programa. Sair algo que funcione já é um milagre por si só; e a optimização não me parece que seja um ponto a ter em conta: "Ah? Demora 10 segundos a abrir o Acrobat Reader? Não faz mal, eles esperam..."
Como se admite que um CPU que pode executar mais de 20 mil milhões de operações por segundo demore mais que 0,5s a fazer algo tão simples como abrir um programa?
Certo, temos que considerar o tempo de acesso ao disco, e a taxa de transferência - algo cada vez mais crucial à medida que os CPUs ficam tão potentes que basicamente passam a maior parte do tempo à espera das próximas instruções... mas um disco actual facilmente transfere 50MB/s... logo, a não ser que me expliquem que tipo de programa necessita de centenas de Megabytes... não percebo.
O "problema" não está no hardware, está no software!
A próxima revolução da informática não terá a ver com um avanço na potência do hardware (que a curto prazo vai restringir-se basicamente aumentar o número de cores por CPU) mas sim no software e nos interfaces com os utilizadores.
Vejam o caso do iPhone: será que tem algum hardware revolucionário? Não.
A única coisa relativamente original é o touchscreen com capacidade multitouch, tudo o resto é o mais comum possível. A diferença? Resume-se aquilo que é verdadeiramente importante: o interface e a usabilidade. O pessoal toca com o dedo, arrasta, a resposta é instantânea, a "experiência de utilização" resulta.
Ora imaginem se tivessem que esperar 10 segundos para esperar que os ícons rodassem, ou o ecrã mudasse de orientação!
Há muitas maneiras de fazer as coisas... mas infelizmente, por cada maneira "certa", há milhares de maneiras "menos certas". E actualmente, parecemos viver num mundo inundado por software mal feito - exceptuando as pequenas jóias que por aí andam, de programas que são a excepção à regra.
Quando faço um programa com Interface gráfico, sempre me preocupei que - além do programa fazer o que lhe compete - a interacção com o utilizador fosse sempre "instantânea". Com maior ou menor dificuldade, sempre o fiz, desde os tempos dos 486DX a 33Mhz.
Abro um qualquer programa, vejo o "refresh" do interface a piscar por todo o lado... ponho logo as mãos à cabeça! Se quem o programou nem soube fazer aquilo em condições, sabe-se lá como estarão as coisas que não estão à vista!
Talvez seja "panca" minha, talvez seja influência de ter crescido a ver pessoal a fazer coisas fantásticas e "impossíveis" em programas de 4 kbytes (ver o vídeo já aqui a seguir)...
Para finalizar, vejam só mais um vídeo de um sistema operativo actual (Xubuntu 7.10) a correr num Pentium III a 800Mhz com 128Mb de RAM e uma GeForce2 com 32Mb:
Ainda são da opinião que se está a utilizar da melhor forma os Gigahertz e Gigabytes que têm disponíveis nas vossas máquinas?
Actualização: Podes querer a "2ª parte" do desabafo, escrita anos depois, sobre a lentidão dos computadores.
2007/11/22
Tecnologia subvertida: Anda tudo mal habituado
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