2018/05/30

À conversa com Pedro Martins


A FCA deu-nos a oportunidade de conversar um pouco com alguns dos seus autores, e desta vez o escolhido para a rubrica "À conversa com" foi Pedro Martins, autor do livro "Introdução à Blockchain - bitcoin, criptomoedas, smart contracts, conceitos, tecnologia, implicações".

No seu recém-publicado livro “Introdução à Blockchain” afirma que esta tecnologia tem o potencial de transformar profundamente as organizações e sociedades. A que transformações se refere?

A tecnologia Blockchain é muito recente, pelo que seguramente à medida que for amadurecendo, iremos identificar outros potenciais impactos mas podemos identificar desde já três importantes forças transformadoras.

A primeira é a usualmente chamada nova Internet do Valor. A Bitcoin, a primeira aplicação prática da tecnologia Blockchain, veio demonstrar que esta nova tecnologia pode ser empregue na criação segura e descentralizada de ativos digitais, como por exemplo criptomoedas. Tal como, em geral, a Internet democratizou e transformou profundamente a forma de produção, distribuição e consumo de informação, a Blockchain permitirá a democratização da produção, distribuição e utilização de representações digitais de valor. É hoje tecnicamente possível a uma comunidade de partes interessadas criar o seu próprio ativo digital e usá-lo, nessa comunidade, como meio de troca na compra de bens e serviços. Isto acontecerá a uma escala global, que não (re)conhece fronteiras nem jurisdições, desafiando as regras atuais. Esta possibilidade é profundamente disruptiva da realidade atual.

A segunda força transformadora corresponde ao movimento de descentralização. A possibilidade de usar a tecnologia Blockchain para descentralizar e partilhar sistemas de registo - que até aqui existiam centralizados -, promoverá a eliminação parcial ou total de intermediários e isso acarretará profundas transformações nas economias, por alteração de modelos de negócio e por transformação da morfologia das cadeias de abastecimento. Por exemplo, uma rede Blockchain com uma criptomoeda pode ser usada como rede de pagamentos ponto a ponto, prescindindo totalmente dos intermediários que estão habitualmente presentes neste tipo de redes. Mesmo modelos de negócio tidos como inovadores como é o caso do modelo de negócio da Uber são modelos centralizados. Quando alguém utiliza uma viatura Uber não está a realizar um negócio diretamente com o prestador de serviço, mas com a Uber. Podemos, contudo, imaginar que essa transação poderia dar-se sobre uma plataforma Blockchain diretamente entre as partes, prescindindo da Uber. Nenhum modelo de negócio atual está teoricamente protegido contra este movimento de descentralização.

A terceira força transformadora é a redução dos custos de contexto. A alteração das cadeias de abastecimento promovida pela tecnologia Blockchain tenderá a reduzir os custos de contexto, seja pela eliminação de intermediários seja pela redução de risco, seja pela redução de outros tipos de custos operacionais. Por exemplo, a partilha de uma mesma rede Blockchain por um conjunto de operadores logísticos permitirá criar um sistema de registo automaticamente reconciliado e sobre o qual a cadeia de abastecimento poderá ser automatizada. A Maersk Line, o grande operador de transporte marítimo dinamarquês anunciou no início deste ano estar precisamente a estudar essa possibilidade. A redução dos custos de contexto permitirá reduzir custos de bens e serviços ao cliente final e dessa forma prestar não só um melhor serviço aos clientes atuais como também alcançar outros segmentos de mercado que até aqui estavam impedidos, por razões de custo, de aceder a esses bens e serviços. Desta forma a Blockchain contribuirá também para uma maior integração e coesão social.

De uma forma simples, como define a tecnologia Blockchain e para que serve?

A tecnologia Blockchain é na realidade um protocolo que se suporta num conjunto de tecnologias, como a tecnologia de redes ponto a ponto e a tecnologia criptográfica, por exemplo para sincronizar as réplicas da base de dados que cada participante possui numa rede Blockchain. A grande inovação introduzida pela Blockchain é a total ausência do recurso a uma entidade central para coordenar essa sincronização, sem que essa omissão impeça os participantes de atingirem uma versão comum (consenso) ou permita, sob certas condições, que um ou mais participantes imponham aos restantes uma determinada versão. A tecnologia Blockchain serve, assim, para criar sistemas de registo descentralizados, transparentes e imutáveis, sobre os quais é possível registar de forma consensual entre os participantes, o estado de um sistema, independentemente do nível de confiança mútua que possa existir entre esses participantes. A aplicabilidade destes sistemas de registo descentralizados é muito ampla, podendo ser usados para criar sistemas de pagamentos descentralizados, sistemas logísticos partilhados ou plataformas computacionais descentralizadas, por exemplo.

Existem outras tecnologias semelhantes à Blockchain? Quais as vantagens de optar por esta tecnologia em detrimento de outras?

Tecnologias para a implementação de sistemas de registo descentralizados, também conhecidas como Decentralized Ledger Technologies (DLT), não são uma novidade. A novidade trazida pela tecnologia Blockchain, que é uma classe de tecnologia DLT, é a total ausência de uma ou mais entidades centrais que coordenem a sincronização das bases de dados. A tecnologia Blockchain consegue este nível de descentralização através de um mecanismo de consenso que é um protocolo e um conjunto de regras para edição da base de dados que assegura a validade e o registo imutável de novos dados na base de dados. Na rede Bitcoin o mecanismo de consenso suporta-se em participantes chamados miners para a validação e o registo de novos blocos de transações na rede, os quais realizam para esse fim cálculos computacionalmente exigentes conhecidos como Proof-of-Work. Pela realização desse esforço os miners são recompensados com a atribuição de criptomoedas (bitcoin). Por isso, na rede Bitcoin, o mecanismo de consenso é também chamado de mining, numa analogia com os processos de mineração de metais preciosos, cuja obtenção requer também o dispêndio de muito esforço.

Alterando o mecanismo de consenso e as propriedades da base de dados, como por exemplo o acesso público universal aos registos, é possível implementar variantes da tecnologia Blockchain. Isso está a ser feito, por exemplo, no desenvolvimento de tecnologia Blockchain empresarial, que em geral utiliza mecanismos de consenso que substituem a Proof-of-Work por outros processos computacionalmente menos exigentes e que limita o acesso aos registos a participantes autorizados. Exemplos destas novas tecnologias Blockchain são a tecnologia Ripple, da empresa norte americana com o mesmo nome, ou a tecnologia Corda do consórcio financeiro mundial R3. Muito recentemente surgiu um novo tipo de tecnologia DLT, também totalmente descentralizado, mas diferente da tecnologia Blockchain, chamado Hedera e suportado num mecanismo de consenso designado hashgraph.

Existem, assim, não só diversas variantes de tecnologia Blockchain, como estão a surgir outras propostas semelhantes à Blockchain na capacidade de criar sistemas de registo descentralizados, transparentes e imutáveis, mas muito diferentes tecnicamente. Até à data, a Blockchain e as suas variantes tem sido a tecnologia predominante neste espaço, sendo que o tipo concreto de Blockchain a utilizar tem de ser decidido em função do caso de uso concreto.

Hoje fala-se muito nas criptomoedas, principalmente na Bitcoin que foi amplamente divulgada aquando do ataque Ransomware, uma vez que os lesados tiveram que pagar avultadas quantias nesta moeda. Já no final de 2017, houve um ataque que resultou no roubo de Bitcoins avaliadas em milhões de dólares. Com base neste último acontecimento, podemos afirmar que a Blockchain é uma tecnologia de transações segura (ou mais segura)?

A pergunta encerra duas questões, importantes, mas distintas. A primeira questão está relacionada com as consequências que advêm sobre a reputação de uma tecnologia quando se faz uma utilização indevida da mesma. Qualquer tecnologia é amoral, no sentido em que ela não impõe por si só uma determinada utilização, seja no sentido da prática do bem seja no sentido da prática do mal. A tecnologia de um foguetão propulsor tanto pode ser usada para colocar um satélite de comunicações em órbita terrestre como pode ser usada para transportar uma ogiva nuclear. Contudo, em geral, as tecnologias são maioritariamente usadas para o bem.

Veja-se o caso do dinheiro físico (notas) que, sendo também usado no pagamento de resgates de pessoas sequestradas, é sobretudo e maioritariamente usado nas nossas singelas ações quotidianas. O mesmo se aplica à tecnologia Blockchain e à sua utilização em criptomoedas como o bitcoin. Sendo uma tecnologia recente, ainda relativamente desconhecida, percebe-se que a sua associação a acontecimentos muito mediáticos como ataques informáticos generalizados possa no imediato trazer-lhe má publicidade, mas com o passar do tempo e sobretudo com a massificação e diversificação da sua utilização veremos que a Blockchain é, nesta questão, uma tecnologia igual a todas as outras.
A segunda questão está relacionada com a segurança da tecnologia. A rede Bitcoin foi criada em 2009 e até à data mantém-se inexpugnável.

Apesar de ser uma rede exposta publicamente e de não requerer autorização de acesso, o que permite que qualquer pessoa possa fazer o download do software ou de uma app e tornar-se membro da rede, e de seguramente terem existido e continuarem a existir muitas tentativas de violação da sua integridade, o facto é que jamais alguém conseguiu alterar a história (transações) de acontecimentos registada na rede. Mas uma coisa é a segurança da rede e outra é a segurança das aplicações informáticas que interagem com a rede. Na rede Bitcoin a propriedade dos bitcoin é exercida através da utilização da chave privada de um par de chave pública, chave privada. Por isso, a gestão da privacidade das chaves privadas é fundamental. Quando se delega essa gestão, por exemplo, numa casa de câmbio, sujeitamos as nossas chaves privadas aos sistemas de segurança que existam nessa casa de câmbio. Se esses sistemas possuírem falhas, os indivíduos que as explorem com sucesso poderão apoderar-se das nossas chaves privadas e dessa forma exercer a propriedade dos nossos bitcoins.

É este tipo de falha de segurança que tem ocorrido amiúde. Portanto, podemos afirmar que a tecnologia Blockchain é em si mesma uma tecnologia segura, mas que exige cuidados redobrados na sua utilização. Se até aqui protegíamos os sistemas informáticos para garantir a segurança de dados, teremos agora de os proteger para garantir também a segurança dos ativos digitais.

Tanto a Blockchain como a Bitcoin eliminam intermediários. Há quem diga que a Bitcoin surgiu com o objetivo de se tornar uma alternativa ao atual sistema financeiro, enquanto a Blockchain pretende assegurar uma maior confiança nas transações entre as empresas ou entre indivíduos. Defende esta visão?

A Bitcoin surgiu em plena crise financeira internacional com o propósito explícito de se constituir como uma moeda e um sistema de pagamentos alternativos ao disponibilizado pelo sistema financeiro, sistema esse tido como se não a causa pelo menos a caixa-de-ressonância da crise financeira. Mas a Bitcoin em particular e a Blockchain em geral não são tecnologias antagónicas ao setor financeiro ou a qualquer outro setor de atividade económica. São, contudo, tecnologias fundacionais que obrigam a repensar modelos económicos e sociais a partir de primeiros princípios, e por isso, muitas vezes vistas como disruptivas e alternativas. Nesta perspetiva, quer o setor financeiro quer qualquer outro setor económico terá de tirar as ilações necessárias do advento desta tecnologia e das novas possibilidades que ela permite.

Atualmente ainda podemos afirmar que a tecnologia Blockchain está muito focada nas criptomoedas ou já temos outros casos de aplicação concreta desta tecnologia? E é uma tecnologia de grandes empresas ou pode ser também utilizada no contexto das PME, que são o principal tecido empresarial português?

De facto, a primeira aplicação prática da tecnologia Blockchain foi na construção de um sistema de pagamentos descentralizado, e existe hoje toda uma nova economia baseada na aplicação da Blockchain à criação e transação de criptomoedas. Mas, deste então, muitos e diversos casos de uso têm sido idealizados e testados nos mais variados setores de atividade. A Blockchain poderá vir a ser usada na criação de sistemas de identidade e de gestão de acesso, na criação de sistemas de registo partilhados e totalmente rastreáveis entre operadores logísticos, na descentralização de marketplaces, na monetização do trabalho autoral diretamente pelo autor, na criação de sistemas de scoring, entre muitos outros exemplos.

Na presente data existem ainda obstáculos, de diversa natureza, que obstam à utilização massiva da tecnologia e que obrigam a alguma capacidade financeira, mas com o passar do tempo, com o amadurecimento da tecnologia e do mercado, esses obstáculos tenderão a ser eliminados. Há 20 ou 30 anos poderia ser difícil a uma PME portuguesa utilizar a tecnologia de e-mail, pela necessidade de investimento financeiro importante em infraestrutura e pessoas, mas hoje a tecnologia de e-mail é um serviço a que uma PME portuguesa acede facilmente. Acredito que com a tecnologia Blockchain irá suceder o mesmo.

A quem recomenda a leitura deste seu livro?

A quem se recomendaria, na década de 90 do século passado, a leitura de um livro introdutório sobre a nova e emergente tecnologia Internet? Os protocolos DLT, como o protocolo Blockchain, encerram um potencial criador tão ou mais significativo que os protocolos TCP/IP e HTTP. É provável que este tipo de tecnologia se torne tão ubíquo quanto a tecnologia da Internet o é hoje, pelo que recomendaria a leitura deste livro a todas as pessoas em geral que pretendam tomar conhecimento com uma tecnologia que muito provavelmente virá a estar futuramente muito presente no seu dia-a-dia, e a todos os gestores e decisores de TI/SI que, pelas suas responsabilidades, tenham de preparar as suas organizações para mais uma importante transformação tecnológica.

E é tudo, o nosso obrigado pelo tempo dispensado, e ficamos aguardar pelos seus próximos livros. :)


Sobre o autor:
Pedro Martins
Diretor de TI/SI no NOVO BANCO e Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Data Science. Trabalhou para grandes multinacionais de consultoria, tendo executado variados projetos de TI/SI para diversas empresas financeiras, de telecomunicações e de energia.




Para quem chegou até aqui, temos uma surpresa. Temos para oferecer dois exemplares do livro "Introdução à Blockchain - bitcoin, criptomoedas, smart contracts, conceitos, tecnologia, implicações" e para te habilitares a ganhar um deles só tens que participar preenchendo o seguinte formulário:

Passatempo encerrado: os vencedores foram:

  • Ricardo Martins
  • Sérgio Azevedo


Fica atento aos próximos passatempos.

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