2018/11/20

Google ameaça fim do Google News na Europa em resposta ao Art. 11


A reforma dos direitos de autor na Europa está a levar-nos por caminhos preocupantes, e não se pode evitar ter uma sensação de déjà-vu a propósito da "taxa dos links" efectivada pelo Artigo 11, e a resposta da Google a esse respeito.

O artigo 11 visa compensar os sites noticioso, impondo uma taxa sempre que se quiser utilizar um link que contenha um excerto da notícia em causa, como se tornou habitual na maior parte dos serviços na internet quando se partilha um link ou em resultado de uma pesquisa. O que este artigo não refere é se isso resultará efectivamente em benefício dos respectivos sites, se a alternativa for o fim da partilha de notícias dos mesmos.

Mais curioso - e parecendo demonstrar a curta memória dos eurodeputados - é que já passamos precisamente por esta situação. Em Dezembro de 2014 a Google anunciou que iria encerrar o Google News em Espanha, em resposta à exigência do pagamento pelos links noticiosos, e que foi prontamente recusada pelos próprios editores, que compreenderam o quanto iriam perder com isso.

Claro que nestas situações as coisas raramente se diferenciam em "preto e branco", e há toda uma rede de "cinzentos" que circunda os interesses de uns e outros. A Google diz que não ganha dinheiro com o Google News e que é um "serviço de interesse público", uma explicação plausível mas demasiado simplista, particularmente para uma empresa que se deu ao trabalho de remover o seu icónico "don't be evil". A Google pode efectivamente não ganhar dinheiro directamente com o Google News, mas a informação que vai recolhendo sobre as notícias que os utilizadores lêem é igualmente valiosa; e isto sem sequer entrarmos no campo da potencial manipulação da opinião pública mediante a selecção de notícias apresentadas.


Mas falando-se de manipulação de opinião pública, isso é tema sobre o qual os próprios grupos editoriais estão muito mais qualificados para falarem; já que é o tipo de coisa que fazem desde muito antes de existir a Google ou a internet. Os jornais / sites noticiosos só fazem sentido se tiverem público que os leia, e quer gostem ou não, têm que se adaptar às novas tecnologias e novas formas de interagirem com os seus leitores, assim como procurarem novas formas de se manterem rentáveis. De uma perspectiva "contabilística", será fácil querer extorquir milhões às plataformas que quiserem partilhar os seus links... espero é que não se tenham esquecido de contabilizar o que acontecerá se as plataformas não cederem a este bluff e se limitarem a deixar de apresentar os seus links ou excertos.

Acho que poderá ser elucidativo o comportamento que os leitores têm em resposta às paywalls ou pedidos de registo para se poderem ler notícias nos seus sites: com a maioria a simplesmente deixar de os visitar e a optar por ler as notícias em sites que não sejam tão intrusivos. E adivinhem quem que é irá ganhar mais dinheiro por conta da publicidade: um site que vai tendo cada vez menos visitantes, ou um que vá conquistando cada vez mais?

... O facto de muitos dos jornais ditos "sérios" se deixarem contagiar por pseudo-notícias e título click-bait acho que responde a esta questão de forma inequivocamente expressiva.

4 comentários:

  1. Respostas
    1. Mas depois apatecem as notícias do pais onde se situam os servidores da VPN... :/

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  2. Faz a Google muito bem, acho que devia até eliminar os links para jornais dos resultados de pesquisas só para eles compreenderem finalmente que estas plataformas não lhes estão a roubar leitores, pelo contrário, são a par das redes sociais a principal via de chegada de leitores às suas plataformas. Dito isto, a actual crise no jornalismo é preocupante e uma ameaça à própria democracia e temos de começar a pensar como financiar o jornalismo do futuro para que este não fique dependente de interesses de grupos financeiros e políticos. Mas o artigo 11 certamente que não é a solução...

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  3. Melhor a Google e todos os outros web sites deixarem de colocar ligações a web sites de notícias e respectivas notícias, e claro nem pensar em colocar excertos de notícias. Não que eles não tenham dinheiro para comprar até os jornais todos, mas só naquela de os deixar morrer por si mesmos, ou terem de investir milhares de euros em publicidade para ter visitantes em vez de estarem a ganhar esse dinheiro.
    No fundo os jornais tendem a desaparecer por completo, e isso nem é totalmente mau, no sentido em que sempre se divulga menos mentiras/ falsidades. Talvez um ou outro se salve por conta da integração em grupos económicos ou de subscrições com preços elevados que permitam manter os mesmos.

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