2020/12/16

Facebook recorre aos jornais para se queixar da Apple

Revelando um completo desafasamento com a realidade, o Facebook recorre aos jornais para se queixar das novas medidas de privacidade implementadas pela Apple no iOS 14.

O Facebook tem estado num total estado de desespero e pânico desde que a Apple anunciou que iria reforçar as medidas de privacidade no iOS 14, fazendo com que fosse necessário o consentimento expresso para as apps poderem aceder ao identificador que permite fazer o tracking dos utilizadores entre diferentes apps. Essas preocupações fizeram com que a Apple adiasse a entrada em vigor dessa alteração para o início de 2021, mas com a data a aproximar-se, o Facebook recorre aos jornais impressos para se queixar da Apple.

Nos anúncios o Facebook posiciona-se como defensor dos pequenos negócios, e de que são eles que estão preocupados com as alterações feitas pela Apple e o impacto que isso terá em fazer chegar a publicidade direccionada aos utilizadores adequados. E que sem esta publicidade direccionada eles terão uma quebra de 60% nas vendas resultantes.

No meio de tudo isto, o Facebook quase se esquece de referir que foi ele que levou ao limite a arte de "perseguir" os utilizadores e atirá-los para classes segmentadas, e que esses dados são muitas vezes utilizados de forma abusiva - relembrar o caso Cambridge Analytica - para manipulação social. Mais ainda, não nos podemos / devemos esquecer que também o próprio Facebook recorreu a todo o tipo de tácticas ilegais para recolher informação sobre os utilizadores. Ainda agora o uso dos dados recolhidos pela app Onavo que pertencia secretamente ao Facebook, vai dar origem a novo processo. O caso do Onavo é flagrante, pois foi com recurso a esses dados que o Facebook viu que serviços estavam em risco de serem uma ameaça, optando por comprá-lo, como fez com o WhatsApp.

É de uma completa falta de noção o Facebook vir apresentar-se publicamente como defensor dos pequenos negócios em resultado de uma medida de protecção da privacidade dos utilizadores - medida que até mereceu elogios por parte da Mozilla - mas parece demonstrar que até o Facebook está contagiado pelo clima de "realidades alternativas" que tantas vezes são disseminadas na sua própria plataforma.

3 comentários:

  1. O mundo digital (supostamente "evoluído", "moderno" e "muito justo") no seu melhor.

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  2. O bom negócio é aquele em que as duas partes ganham.
    "Ah, mas privacidade dos utilizadores não é um negócio!"
    Mas de que privacidade se trata? De dificultar, de um modo que os utilizadores nem percebem, que os anunciantes apresentem publicidade dirigida - que é a fonte de rendimento de muitas empresas que vendem produtos e serviços.

    O que ganha o utilizador - nada, continua a ver anúncios, só que aleatórios. Sempre podia ver anúncios que lhe interessavam.

    A aplaudida (por alguns) medida da Apple é um mau negócio, em que os dois perdem.

    "Ah, mas o advogado das empresas, a Facebook, sabem como ela é ...". Neste caso até nem recebe nada com muitos dos anúncios deste assunto. Mas se a questão é o Facebook, em França entidades públicas puseram a Apple em tribunal assinalando a estupidez da medida, em que o utilizador não ganha e as empresas perdem.

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    1. Continuas a ter dificuldade de ver as coisas: a Apple não está a impedir nada, nem que o Facebook ou outros continuam a fazer tracking; o que a Apple implementou foi dar a escolha ao utilizador, sobre se aceita que isso seja feito ou não, de forma mais visível - tal como acontece com os pedidos de acesso aos contactos, por exemplo.

      De resto, se pensas que o assunto se resume apenas ao "ver anúncios", ignorando toda a componente de criação de perfis personalizados de cada utilizador e todo o potencial de manipulação por trás disso, estás no teu direito continuar a dar o acesso para o tracking e manter-se tudo como sempre.

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