2021/02/20

Nos bastidores da censura da ByteDance na China

Um ex-funcionário da ByteDance levanta o véu sobre como funciona a vasta máquina de censura chinesa que monitoriza todos os serviços no país.

A China tornou-se num país tão "comum" nas últimas décadas, que por vezes até nos esquecemos que por lá continuam a imperar regras bem diferentes das nossas. A apertada censura torna-se particularmente relevante para nós, enquanto país que apenas se conseguiu livrar disso há menos de meio-século, podendo o caso chinês servir de exemplo do tipo de coisas que poderíamos ter que enfrentar neste momento, se não tivesse havido o 25 de Abril.

A ByteDance pode não ser imediatamente reconhecida por muitas pessoas no ocidente, mas passa a sê-lo quando se explica que é a empresa por trás do TikTok (que na China tem uma versão chamada Douyin) e outras apps. E, neste caso, temos o relato de alguém que trabalhou nesta empresa, na secção responsável pela moderação e censura de conteúdos.

Para se ter uma ideia do que isto significa, para uma empresa como a ByteDance representa ter 20 mil pessoas (!) dedicadas exclusivamente à moderação, responsáveis por eliminar todo o tipo de conteúdos que sejam considerados "indesejados" pelo governo, não só para os temas políticos - que os chineses já se habituaram a auto-censurar, por saberem que os pode colocar em sarilhos - como para coisas consideradas socialmente inaceitáveis (como pornografia, roupa ou comportamentos demasiado provocantes, etc.).
Existe um serviço governamental que emite centenas de directivas por dia sobre a forma como se devem lidar com certos tópicos, que se podem aplicar não só aos assuntos mais relevantes da actualidade mas também implicar que se eliminem conteúdos já publicados anteriormente. O serviço não deixa escapar sequer emissões em livestream, que contam com ferramentas de transcrição automática para texto, e sinalizando os moderadores automaticamente no caso de serem detectadas palavras problemáticas - podendo levar à suspensão da emissão, ou até à eliminação completa da conta, ficando a ocorrência associada ao utilizador / cidadão. Refere ainda terem havido pedidos para que fossem criadas ferramentas que permitissem detectar certos dialectos, como o Uyghur, e encerrassem automaticamente o livestream, sem que sequer fosse necessária intervenção de um moderador.

... Enfim, um triste lado negro de um país que se tornou no produtor do mundo, e que deve servir de lembrança constante do verdadeiro valor que devemos dar às liberdades que tomamos por garantidas, mas que na realidade foram conquistadas a muito custo.

4 comentários:

  1. "podendo o caso chinês servir de exemplo do tipo de coisas que poderíamos ter que enfrentar neste momento, se não tivesse havido o 25 de Abril" -> ou que podemos ainda enfrentar se continuarmos a dar força a forças políticas com ideias idênticas ao Partido Comunista Chinês, não tivéssemos nós também partidos comunistas legalizados, que mal tivessem o poder, seguiriam o mau exemplo da China, de forma a manterem o poder. Não esquecer que não há ditaduras boas ou más.

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    1. Censura nada tem a ver com a posição no espectro político do partido, tem unicamente a ver com o extremismo da imposição ideológica por quem está à frente no poder.
      Nas últimas décadas, este extremismo está associado a partidos de esquerda, no entanto, andando algumas décadas para trás temos provas deste extremismo e de censura de extrema direita.
      Nesta fase, olhando à nossa volta, nos países ditos de 1º mundo, a preocupação parece ser no sentido oposto, com o crescimento da extrema direita.

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  2. Infelizmente este problema não tem só a ver com os extremos (esquerdos e direitos), continua-se a condenar qualquer coisa que saia da norma.

    Vejam o facebook a censurar a venus de milo, cartoons com judeus, muçulmanos, católicos, piadas, ....
    ...tudo isto levado ao extremo por delitos de opinião quando se desvia da opinião vigente...

    Felizmente não estamos em nenhum dos extremos, onde as consequências chegam a ser de vida e de morte, mas temos de continuar a lutar para que nunca lá cheguemos.

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