2021/01/18

A manipulação pelas redes sociais

Numa altura em que se discute o direito das redes sociais decidirem quem pode falar ou deve ser silenciado, será conveniente lembrar que isso é o que já começaram a fazer há muito.

A remoção de Trump da maioria das redes sociais tem levantado a questão sobre se deverão as plataformas online ter o direito de decidir quem pode falar ou não, com os habituais argumentos da liberdade de expressão e o direito de se dizer tudo o que se quiser dizer. E, na verdade, podem. O direito à liberdade de expressão não significa que se possa entrar em qualquer lado e começar a apregoar o que quer que lhes apeteça dizer, da mesma forma que alguém que o começasse a fazer num local privado - como um café ou restaurante - seria imediatamente colocado na rua. O que a liberdade de expressão garante é que a pessoa possa dizer o que quer num espaço público, e o problema é que, na internet, e por muito estranho que possa parecer, não existem realmente espaços "públicos" - com esses locais, Facebook, Twitter, YouTube, etc. a serem na verdade espaços privados, sob controlo de uma ou outra entidade.

Uma das soluções sugeridas é impedir que estes monopólios que se tornam dominantes nas suas respectivas áreas se possam criar, garantindo um ecossistema mais saudável e concorrencial de serviços mais pequenos; enquanto outros tentam decidir o papel que as plataformas deverão ter nos utilizadores que aceitam ter e naquilo que é dito. Mas a verdade é que as plataformas estão apenas a colher aquilo que começaram a semear há muito.

Pegue-se no Facebook, YouTube, TikTok e outros, e aquilo que têm em comum é o seu papel proactivo em mostrar aos visitantes aquilo que elas acham que deveríamos ver. Há muito que o Facebook deixou de ser uma plataforma em que eram os utilizadores a decidir o que queriam ver e quem queriam seguir, com a desculpa de que os utilizadores "não sabem" o que querem ver, e que os seus algoritmos serão mais capazes de decidir por eles. Chegamos ao ponto ridículo do Facebook nem sequer nos apresentar os conteúdos das pessoas ou páginas que seguimos, sendo a que a essas páginas vai insistindo na táctica do "não quer pagar uns euros para garantir que as coisas que escreve possam mesmo ser lidas pelas pessoas que o seguem?"

Grande parte do extremismo e fracturação social a que assistimos pode derivar do facto destas plataformas lucrarem mais com a disseminação de conteúdos propícios a isso, que geram mais interacções e reacções mais fortes (vejam-se os estudos que confirmam a maior viralidade das fakenews, que são partilhadas e espalhadas muito mais rapidamente que as notícias verdadeiras; ou como em tempos o YouTube se fartava de sugerir vídeos de teorias da conspiração, incluindo coisas como os defensores da terra plana e outros).

Talvez fosse mais simples que em vez de decidirem o que acham que os utilizadores querem ver, as plataformas se limitassem a mostrar aquilo que os utilizadores escolhem expressamente que querem ver, ou pelo menos dar-lhes essa opção. Seria uma potencial solução, simples e eficaz, e fácil de implementar em todas as diferentes plataformas.

6 comentários:

  1. É muito simples : Há muitos $$$ por traz disto tudo !

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  2. Ver documentário " O dilema das redes sociais" Netflix.. muito bom

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  3. Ver documentário " O dilema das redes sociais" Netflix.. muito bom

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  4. O Parler surgiu para ser uma rede social sem censura, mas pelos vistos os "polícias do pensamento" (facebook, google) conseguiram arranjar forma de acabar com ela.
    Vivemos tempos perigosos.

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